Por
Redação Afya
9.3.2026
•
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Um estudo publicado recentemente no BMJ Open, periódico de acesso aberto dedicado exclusivamente à divulgação de pesquisas médicas, apresentou o Índice Afya MedQoL, a primeira escala brasileira que mede e avalia a saúde mental e a qualidade de vida da categoria médica. O instrumento foi aplicado online junto a 2.005 médicos de todas as regiões do país, entre julho e agosto de 2024, e revelou padrões importantes sobre 13 itens agrupados em três dimensões.
Com base nos dados encontrados, o índice mostra um número global de 0 a 100, que indica a percepção sobre a situação de saúde e da qualidade de vida dos médicos no período avaliado. O primeiro resultado indicou a pontuação geral de 67,2. A dimensão bem-estar apresentou um resultado acima do índice geral com 69,5, enquanto as dimensões apoio institucional e estresse percebido apresentaram pontuação de 64,1 e 62,5, respectivamente. No caso da dimensão estresse percebido, quando observada isoladamente, ela indica que quanto maior a pontuação, mais elevados são os níveis de estresse.
“O Afya MedQoL nasceu da necessidade de ter uma ferramenta específica para médicos, já que instrumentos tradicionais como WHOQOL-BREF não capturam nuances da prática médica”, explica Gustavo Meireles, VP Médico da Afya. Para desenvolver o índice, a equipe de especialistas elaborou um questionário com perguntas baseadas em teorias de bem-estar e psicologia ocupacional, o qual passou por uma validação psicométrica para garantir precisão e comparabilidade. O resultado do indicador geral apresentou alta confiabilidade (ρ=0,82) e forte correlação com medidas clássicas de qualidade de vida, consolidando-se como referência para monitoramento nacional.
Desde 2023, a Afya realiza uma pesquisa sobre a qualidade de vida do médico, mas com dados isolados sobre ansiedade, síndrome de Burnout, estresse e outros aspectos. Agora, pela primeira vez, a categoria conta com uma métrica única que permite medir e comparar o progresso ao longo do tempo sob uma perspectiva multidimensional que integra aspectos mentais, físicos, sociais e ocupacionais. “O Afya MedQoL é um marco porque traduz a complexidade do bem-estar médico em uma ferramenta prática e cientificamente rigorosa”, afirma Meirelles.
Gênero, situação financeira e formação
Estresse percebido é o fator mais crítico. Médicos que trabalham 60 horas ou mais por semana tiveram pontuações de estresse 8,8 pontos maiores que os que trabalham até 44 horas. Quando a comparação é feita entre homens e mulheres, em relação ao índice geral não houve diferença significativa. No entanto, médicas relataram níveis de estresse 5,6 pontos superiores aos homens. Essa dimensão diminui significativamente com o aumento do tempo de exercício profissional desde a graduação, ou seja, médicos com mais tempo de formação relatam ter um estresse percebido menor.
“O estresse percebido é considerado o termômetro mais sensível em nosso estudo, porque ele responde ao gênero, à fase da carreira e à cultura organizacional”, afirma Marcelo Gobbo, médico e um dos autores do estudo.
A renda mensal influencia a percepção de bem-estar, que é maior à medida que a suficiência financeira aumenta, mas estabiliza ao atingir o patamar de R$ 25.000 mensais. Na escala de 0 a 100, uma percepção de bem-estar criticamente baixa (igual ou inferior a 30 pontos) foi observado em 9,6% dos respondentes, enquanto 20,7% obtiveram um resultado de 70 pontos ou mais, indicando um alto índice de percepção de bem-estar.
O ambiente de trabalho também importa
Os profissionais que trabalham predominantemente em clínicas privadas ou por telemedicina apresentaram índices de bem-estar até 7 pontos acima daqueles que trabalham em hospitais públicos, UBS ou hospitais privados, cujas pontuações ficaram próximas ou abaixo da média da amostra.
Em relação à especialidade médica, os resultados mostram que dermatologistas, oftalmologistas e radiologistas relataram pontuações significativamente mais altas de qualidade de vida e bem-estar em comparação com a amostra geral. Em contrapartida, especialidades como medicina familiar, áreas cirúrgicas e ginecologia e obstetrícia tiveram pontuações mais baixas.
Essas descobertas sugerem que tanto a especialidade médica quanto o ambiente de trabalho podem influenciar substancialmente a percepção geral de bem-estar dos médicos, provavelmente refletindo variações nas exigências do trabalho, autonomia profissional e apoio institucional.
Neste primeiro resultado, o estudo sugere que intervenções não financeiras, como redução da carga horária, programas de redução do estresse e culturas organizacionais não punitivas, podem exercer maior impacto positivo para o bem-estar dos médicos que apenas aumentos salariais isolados. “Reduzir jornadas acima de 60 horas e oferecer suporte psicológico não é luxo, é política de segurança e qualidade de vida para médicos e pacientes”, comenta Gobbo.
Dos 2.005 médicos que responderam ao questionário, a média de idade foi de 39,7 anos e 51,2% do gênero feminino. Pouco mais da metade da amostra concluiu a graduação até 2014 e tinha 10 anos ou mais de prática médica, com renda líquida média de R$ 18.300 mensais.
A pesquisa não possui finalidade comercial e tem perspectiva longitudinal, pois acompanha a amostra com características semelhantes ao longo de um período, realizando coletas periódicas de dados. Isso permite observar mudanças, tendências e relações causais entre variáveis, algo que estudos transversais (feitos em um único momento) não conseguem mostrar.